Crise põe em xeque arquitetura dos sistemas financeiros

A discussão entre a conveniência de se andar com um servidor literalmente embaixo do braço ou então ter todos os negócios da empresa à mão de executivos e colaboradores, em qualquer hora ou lugar, está passando por um autêntico campo de provas, frente à Covid-19 e suas múltiplas consequências.

Lidar com um dos produtos mais fungíveis que existem – o dinheiro próprio e o alheio – requer uma mobilidade toda especial em horas como estas, que servem, dentre outras coisas, para desmascarar certas gambiarras relativamente bem-sucedidas em momentos mais tranquilos.

Diante das justificáveis restrições de locomoção vividas por todos atualmente, o que têm transformado em quase “crime lesa pátria” o deslocamento diário de casa ao escritório, por exemplo, vem à tona com toda a intensidade a importância de os sistemas que atendem factorings, securitizadoras, FIDCs e fintechs, assim como várias outras modalidades de instituições financeiras regidas pelo Banco Central, estarem em sintonia com uma realidade presente em alguns dos segmentos mais competitivos da nossa economia.

Foi o que sentiu na carne, há cerca de dois anos, Nicolau Jorge Neto, sócio da Fidúcia Financiamentos, de Sorocaba (SP), quando sua empresa, que já operava como Sociedade de Crédito ao Microempreendedor (SCM), passou também a ser um banco de retaguarda perante o BACEN, o chamado “Banking as a Service”, e ainda, mais recentemente, uma instituição de pagamento.

“Com essa complexidade de operações, seria impossível trabalhar hoje em dia da forma analógica, como quando o negócio começou, há 18 anos”, reconhece Nicolau, para quem o momento atual serve apenas para reforçar certezas assim.

“Nossa equipe hoje está toda em home office. Se estivéssemos ainda com um software local, as coisas estariam bem mais complicadas, nossas operações simplesmente travariam”, acrescenta o executivo, lembrando uma de suas máximas: “na prestação de serviço ou você é tecnológico ou não é nada”.

Para Rodrigo Guerra, acionista da paulistana Renova Investimentos, o quadro é semelhante. Responsável pela gestão de FIDCs, fundos multimercado e uma securitizadora, sua empresa começou 15 anos atrás trabalhando em cima de planilhas, depois teve servidor próprio, mas aos poucos foi se conectando.

“Nós participamos do projeto de criação do ‘motor de crédito’, sistema especialista em serviços de análise e concessão neste campo (DEPS), que simplesmente não se conectava a outras soluções que usávamos”, relembra o profissional em sistema financeiro, com formação acadêmica em marketing.

Igualmente decisivo para a escolha em favor da nuvem na Renova foi a mobilidade proporcionada pelo sistema, “sem a qual ficaria impossível crescer”, pondera. “Como tocar o negócio, se cada fundo tiver um servidor e nada se conectar entre si? ”, acrescenta o profissional.

Em sua análise, a crise atual é um exemplo gritante disto, pois em plena tarde da última quinta-feira, ele, seus sócios e toda a equipe trabalhavam cada um de um lugar, como se fosse um dia de expediente normal.

Mas, no seu entender, as vantagens não param por aí. Segurança de dados, compatibilidade com novas tecnologias, facilidade de integração com o motor de crédito e qualidade da inteligência embarcada – incluindo a utilização de aplicativos – são pontos igualmente notáveis, sem falar na quantidade de dados analíticos, por ele definida como fantástica.

Por sua vez, Ricardo Mendes, da mineira RBM Web, softwarehouse parceira na área de sistemas inteligentes tanto da Fidúcia quanto da Renova, e mais de 200 outras instituições com perfis semelhantes – a exemplo do SINFAC-SP – operar sem as amarras de servidores locais é uma tendência irreversível no setor financeiro e tantos outros que não abrem mão de ter seus dados acessados sem qualquer barreira de tempo ou espaço.

Segundo ele, todos os módulos da RBM Web (back office, operacional, contábil, financeiro, cobrança e correspondente bancário) já nasceram 100% na nuvem. “E isto 15 anos atrás, quando a Internet ainda era lenta e fibra ótica beirava a ficção científica”, arremata o especialista, sem disfarçar seu orgulho.

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